quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Ensino Doméstico

Em 2001, o ano em que nasceu a minha filha mais velha, comecei a interessar-me por livros acerca do desenvolvimento das crianças, aprendizagem, educação e temas relacionados. Entre outros, veio-me parar às mãos um livro chamado “Como Aprendem as Crianças”, de um autor americano, John Holt.

Fiquei fascinada com o facto – para mim desconhecido – de haver países onde a frequência da escola não é obrigatória. Mais surpreendida fiquei ainda, quando posteriormente vim a descobrir que Portugal era um deles, e que apesar de ser uma modalidade de ensino praticamente desconhecida entre nós, ela é legalmente possível desde 1957, sob a designação de Ensino Doméstico. Este termo não é o mais feliz, pois transmite frequentemente a ideia de crianças encerradas em casa com um preceptor, à maneira do século passado. Ora, tratase, precisamente, do oposto. A ideia é não obrigar as crianças a ficarem encerradas entre paredes (neste caso as da escola), mas sim colocá-las em contacto com o mundo e a sociedade reais. Em termos práticos, consiste em matricular as crianças na escola e responsabilizar-se pela sua educação, não as obrigando a frequentar as aulas. As rotinas seguidas variam de família para família e não são padronizadas.

Desde então, tenho lido muito sobre o assunto, e apercebi-me que as razões que levam as pessoas a optar por este tipo de ensino são as mais variadas. Há pessoas cujas profissões as obrigam a mudar constantemente de país, outras que julgam o sistema de ensino pouco adequado às suas crenças religiosas, outras ainda possuem razões filosóficas, ou de natureza técnica, não concordando com os métodos de ensino utilizados nas escolas.

No sistema de ensino tradicional, os estudantes têm, inevitavelmente, que seguir a calendarização e o currículo oficialmente impostos, submeter-se a avaliações regulares, etc. Se este método se pode adequar mais ou menos bem às necessidades de algumas crianças, na maior parte dos casos, não é isso que acontece. Mesmo para muitos dos que se tornam “bons alunos” (como era o meu caso), as motivações que lhes são dadas, são – do ponto de vista de quem opta pelo Ensino Doméstico - incorrectas: agradar aos professores, obter boas notas por causa dos pais, ou competir para se sentir superior aos colegas. A longo prazo, qualquer destas motivações ensina que aprender não é, em si mesmo, algo que valha a pena, a menos que exista qualquer tipo de recompensa final. Para além de, na maioria dos casos, não se traduzir numa verdadeira aprendizagem, mas apenas numa mera memorização de factos que são esquecidos pouco tempo depois. Quantos de nós obteriam uma boa nota se neste momento fizéssemos o exame do 9º ano? Ou mesmo do 4º?...

O Ensino Doméstico pode proporcionar um ambiente de aprendizagem totalmente diferente, uma vez que permite dar às crianças a possibilidade de seguirem os seus próprios interesses num dado momento, tirando partido da sua própria motivação. Dispõem, ainda, de tempo para contactar com o mundo “real”. Hoje em dia, as crianças passam cada vez mais horas na escola, num ambiente que não traduz aquilo que se irá encontrar no dia em que, terminado o percurso escolar, se decida entrar no mercado de trabalho. Muitas crianças saem de casa de madrugada e regressam ao fim do dia, dispondo apenas de tempo para fazer os trabalhos de casa, jantar, ver um pouco de TV e ir para a cama. Sabem o nome das profissões dos pais, mas na maior parte dos casos, não fazem a mínima ideia daquilo que eles fazem durante todo o dia. O mesmo em relação aos tios, vizinhos, etc.

Neste contexto, será assim tão surpreendente que a maioria dos alunos termine a escola sem fazer ideia da profissão que quer seguir? As escolas, para além de nos subtraírem durante demasiado tempo ao "mundo real", ainda nos compartimentam em turmas de acordo com idades (quando o natural, nas sociedades humanas, é que os mais novos aprendam com os mais velhos) e por vezes de acordo com os desempenhos (turmas de "bons” e turmas de “maus” alunos). No sítio onde vivo – e imagino que também em muitos outros – são ainda criadas turmas de alunos “da cidade” e turmas de alunos “das aldeias”. A intenção não é má, prendendo-se com razões práticas relacionadas com os horários dos transportes escolares, mas como é evidente, não contribui em nada para uma boa integração social das crianças...

Estas foram apenas algumas das razões que me levaram a mim e ao meu marido, a considerar a possibilidade do Ensino Doméstico para as nossas duas filhas, neste momento com dois e cinco anos de idade. Podia ainda falar da indiferença que se vai
aprendendo cada vez que um assunto que nos interessa é interrompido pelo toque de uma campainha, da dependência intelectual que se desenvolve quando nos habituamos a esperar que alguém – superior e mais conhecedor do que nós – nos diga o que fazer e como fazer, e finalmente, mas sem surpresas, da irrisória autoestima que nos vai sendo incutida, como corolário de tantas dependências de terceiros.

Quando chegar a altura, matricularemos as nossas filhas, e dar-lhes-emos a possibilidade de escolher entre frequentar ou não a escola. Até lá, procuramos não as
influenciar num ou noutro sentido, apesar de preferirmos claramente a segunda hipótese. Até à data, nenhuma delas esteve a cargo de amas ou infantários, pelo que nos consideramos já a fazer Ensino Doméstico. O que – não nos iludamos – não tem sido fácil.

Com a família longe, não possuímos a preciosa ajuda dos avós a que a maioria das famílias recorre com alguma regularidade. O facto de eu trabalhar por conta própria e possuir o meu escritório em casa ajuda bastante, mas não seria suficiente se o meu marido não tivesse optado por trabalhar em regime de jornada contínua. Esta modalidade de trabalho, acessível tanto a trabalhadores do estado, como aos de instituições privadas com filhos pequenos, permite trabalhar seis horas seguidas, com meia hora de descanso, distribuídas por um horário proposto pelo trabalhador e sujeito a aprovação da entidade patronal. No nosso caso, eu encarrego-me das crianças durante a parte da manhã e almoço, até ao regresso a casa do pai, entre as três e as quatro horas da tarde. Mesmo assim, ainda são algumas as noites em que tenho que reduzir as horas de sono para pôr o trabalho em dia. E tudo se complica quando tenho que viajar, o que acontece de vez em quando e obriga a alguma ginástica logística.

Algumas pessoas optam por um dos elementos do casal deixar de trabalhar para se dedicar totalmente às crianças. No nosso caso, isso não é possível, não só por questões financeiras, mas também porque ambos gostamos bastante daquilo que fazemos, e procuramos envolver as crianças, na medida do possível e tendo em conta as suas idades, nas nossas actividades, para que entendam exactamente em que consistem as nossas profissões.

Ainda assim, a não frequência da escola apresenta algumas vantagens em termos económicos. Poupa-se nas mensalidades dos colégios se são privados e ainda bastante se são públicos, pois há sempre gastos com gasolina nas deslocações diárias para levar e trazer as crianças (frequentemente em horas de ponta) ou no extra que custa o
transporte escolar, poupa-se nas refeições da cantina (sem mencionar a fraca qualidade da comida), nas actividades extracurriculares, livros, materiais, explicações... É claro que fazer ensino doméstico não significa ficar fechado em casa com as crianças mas muitas deslocações podem fazer-se de transportes públicos, ou mesmo a pé, e, se se optar por usar o carro, podem sempre evitar-se as horas de maior trânsito e é possível usufruir de preços especiais em museus, etc. para os miúdos.

Quanto a livros e materiais, a página internet do Ministério da Educação disponibiliza os programas gratuitamente (para sabermos o que é que é suposto "saber-se") e hoje em dia há imensas informações na internet, nas bibliotecas, nos museus e outras instituições, que até à data nos têm sempre recebido da melhor maneira e onde, em muitos casos, nos conhecem pelos nomes.

Na realidade, penso que esta é mesmo uma das vantagens do ensino doméstico: as crianças perceberem no seu dia-a-dia que a sabedoria não vem enlatada em manuais escolares, mas está por todo o lado e que há que aprender a procurar e a seleccionar o que é importante no meio da enorme oferta existente.

O texto já vai longo e muito mais haveria para dizer. Fica apenas uma nota final para realçar que passar o dia (mesmo que não seja todo)com crianças dá muito trabalho. Para além das questões óbvias do vestir, mudar fraldas, dar banhos, preparar refeições, etc., a casa de uma família que faz Ensino Doméstico parece estar permanentemente desarrumada. É incrível a velocidade a que eles desarrumam e o caos que parece estar sempre a querer instalar-se, apesar de irmos arrumando ao longo do dia. A mais velha já interiorizou alguns hábitos de arrumação, mas a mais pequena, com apenas dois anos é, naturalmente, o caos personificado. E depois, há trabalhos em curso, que simplesmente não se podem deslocar enquanto não ficam completos: o dinossauro em pasta de papel que vai crescendo a ritmo lento, a grande colagem que ocupa metade do chão do escritório...

Acrescem as saídas frequentes, para a cidade ou para o campo, que acarretam uma necessidade extra de planificação, mudança de roupas, calçado... No fim de tudo isto, saber que a maior parte das pessoas acha que temos imensa sorte por estar em casa "sem fazer nada" pode ser um pouco frustrante...

Felizmente, ver as crianças a crescer saudáveis, a aprender ao seu ritmo, sem ressões e sem dramas, verificar como vão ultrapassando obstáculos e fazendo progressos, por vezes surpreendentes, tudo isto é largamente compensador.

Ana Guimarães Ferreira

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