quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Ela é a "prof" dos próprios filhos

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Aos 34 anos, Sofia Sequeira tomou a decisão da sua vida: tornar-se professora dos seus três filhos, subtraindo-os ao sistema clássico de ensino na escola. Conta fazê-lo, confessa, “enquanto se divertir” com isso. Legalmente, é a única família do Algarve a tomar essa opção desde que há memória.

A opção é recente, só este ano lectivo Sofia e o marido, Carlos Neves, 32 anos, residentes em Faro, percorreram os caminhos legais que permitem à quase-licenciada em Artes Plásticas dedicar-se a tempo inteiro aos filhos, Gaspar (11 anos), Mariana (10) e Mateus (4).

“Adoramos viajar e o património cultural e de vida dessas viagens é a melhor herança que podemos deixar aos nossos filhos. Mas isso era incompatível com a escola tradicional”, afirma Sofia ao Observatório do Algarve, explicando que passa dois a três meses por ano no Brasil, onde a família tem casa, o que também era inconciliável com a escola.

Até agora, nestes dois meses de experiência, sobretudo com os mais velhos, não se tem dado mal: “Eles adoram aprender, têm uma sede enorme de saber coisas e este sistema permite adaptar a aprendizagem à própria evolução”, explica Sofia, que está a dar a matéria do 6º ano de escolaridade ao Gaspar e do 5º ano à Mariana.

Para conseguir o objectivo, Sofia e Carlos valeram-se de um velho decreto-lei dos anos 40 em que se consagra a possibilidade do ensino doméstico, mas também do Estatuto do Ensino Particular e Cooperativo, de 1980, que consigna a hipótese.

“Legalmente, trata-se de uma transferência, mas em vez de ser para outra escola é para o seio da família”, aclara Sofia, que meteu os papéis em Setembro e teve que esperar cinco semanas por uma decisão da Direcção Regional de Educação (DRE), que entendeu pedir esclarecimentos adicionais (ver outra notícia).

“A escola baseia-se na normalização”

Do ponto de vista formal, as escolas têm autonomia para dar parecer positivo à transferência, explica a mãe-professora, mas no caso de Gaspar e Mariana, como a situação era considera insólita, o estabelecimento de ensino não quis tomar a responsabilidade sem ter um parecer da DRE. Quando chegou, “fizemos uma festa”, jura.

“O problema é que esse parecer foi pedido em Outubro e demorou as tais cinco semanas, o que provocou um tremendo stress nas crianças, que se sentiam desenquadradas, porque já não tinham a escola mas formalmente não sabiam se podiam continuar a ter aulas comigo”, explica.

O casal sabe que no nosso País a opção é muito rara – no ano lectivo 2006/2007 apenas abrangia quatro crianças, de três famílias diferentes -, mas o contacto com alguns dos que fazem a experiência, através de um grupo da Internet, tem-nos ajudado a ultrapassar os escolhos.

Uma família de jornalistas, com um rapaz de 14 anos e uma rapariga de 11 que viajam numa caravana, com site na Internet, e uma experiência em Coimbra com oito famílias que se juntaram e construíram uma escola numa tenda foram algumas das práticas que acabaram por estimular o casal Sequeira a prosseguir no intento, que já andava a germinar há alguns meses.

Outro estímulo foi a “infelicidade” do Gaspar na escola: “Ele aprendeu a ler ainda antes de ir para a escola e às vezes sentia-se um pouco frustrado”, enuncia a jovem mãe, sublinhando que outra causa da decisão foi a própria experiência do marido, actualmente programador de informática.

Era considerado uma criança precoce e saiu da escola com o 9º ano, “porque aquilo para ele era uma seca”. Só mais tarde retomou o ensino.

“O sistema escolar tradicional baseia-se na normalização, não valorizamos a individualidade das crianças no ensino”, acusa Sofia, habituada a outra realidade, a do sul do Brasil, em que “a criança é o centro do Universo”, ao contrário do que diz acontecer em Portugal.

A casa no sul do Brasil é, de resto, outra das razões da escolha: a família passa dois a três meses por ano numa casa que comprou – uma vez que Carlos, empresário, pode laborar em regime de tele-trabalho não têm a “prisão” do emprego – e é aí que se dá a socialização das crianças.

“Lá, têm uma liberdade que não têm aqui. Vivem em matilha, sobem o rio com outras pessoas, novos e velhos, sabem tudo sobre os nossos vizinhos, vão plantar melancias ou apanhar bananas”.

“O mundo é uma escola”

À liberdade brasileira acrescenta-se uma outra, também facilitada pela opção recente da família: uma auto-caravana, adquirida recentemente, permite-lhes fazer visitas de estudo mais alargadas do que as permitidas pelas estreitas jornadas escolares.

“Brevemente vamos a Inglaterra, vou-lhes apresentar Londres, mas antes tenho que adequar a viagem ao próprio programa escolar”, acentua, sustentando que este tipo de ensino permite um contacto muito mais directo entre a parte lúdica da realidade – nomeadamente nas visitas de estudo – e a matéria escolar.

Utilizando os manuais e livros escolares do estabelecimento de ensino onde Gaspar e Mariana andariam, Sofia Sequeira não se furta ao ensino de matérias mais densas, como a matemática ou o português e, garante, os miúdos não fogem à aprendizagem.

“Estivemos uma semana a deitar-nos progressivamente mais cedo, para nos adaptarmos ao horário. Às 9:00 reunimo-nos à mesa para começar a trabalhar”, relata, salientando que as crianças nunca falharam um único minuto, “pelo contrário, despacham-se mais cedo”.

A semana é programada aos domingos ao princípio da noite e inclui, além dos estudos mais domésticos, visitas à biblioteca de Faro, a museus, a outras cidades, “não há um único dia em que estejamos só fechados em casa”.

O ano escolar de diferença entre os dois irmãos também não preocupa Sofia, com a aprendizagem de Mariana (5º ano), Gaspar (que anda no 6º) vai consolidando a matéria dada no ano anterior, enquanto Mariana vai tendo umas luzes sobre o que aprenderá deveras no ano seguinte.

Além das tarefas escolares, os dois miúdos frequentam actividades extra-curriculares, sobretudo de música, o que ajuda à sua sociabilização, sublinha Sofia Sequeira, convencida de que, convivendo com a mãe, com os vizinhos brasileiros, com os amigos ou com os professores de música, para os seus filhos “o mundo é uma escola”.

“Continuarei com este método enquanto nos divertirmos todos juntos”, assegura Sofia, que terá que propor os filhos, como alunos externos, a todas as avaliações de fim de ciclo, no final do 6º, 9º 11º e 12º anos de escolaridade.

E espera que a diversão chegue até lá. Ao ritmo do hino desta família invulgar, que chega do outro lado do Atlântico sob a forma de canção. Do grupo Palavra Cantada.

João Prudêncio

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